3 Fevereiro 2026

A Revolução Silenciosa nas Universidades: Como a IA Está Redesenhando o Ensino Superior Global

A mídia chinesa tem notado uma transformação discreta, mas profunda, na paisagem acadêmica do país. Instituições de renome, como a Universidade de Jilin e a Universidade Normal do Leste da China, suspenderam novas matrículas em cursos de belas-artes, incluindo pintura e escultura. Em contrapartida, áreas voltadas para engenharia, computação, inteligência artificial (IA) e circuitos integrados emergem com vigor.

À primeira vista, essa contração das artes e a expansão das engenharias parecem apenas um realocamento pragmático de recursos, respondendo a prioridades políticas e forças de mercado. No entanto, uma análise mais atenta revela um embate sutil entre imperativos utilitários e a preservação das humanidades, além da tensão entre a iteração tecnológica e a natureza intrínseca das disciplinas acadêmicas. É fundamental não cair em pensamentos binários simplistas; a situação exige ser compreendida dentro das correntes mais amplas de transformação histórica e dinâmica populacional.

O Peso da Demanda e a Realidade do Mercado

Na China, ajustes nos programas universitários nunca foram arbitrários. Eles são o resultado combinado de diretrizes políticas, demandas do mercado de trabalho e tendências demográficas. Desde o lançamento da iniciativa “Nova Educação em Engenharia”, as políticas direcionaram as universidades para campos estrategicamente vitais, visando suprir a escassez de talentos técnicos de alto nível.

Dados da indústria mostram que o país enfrenta hoje um déficit de mais de 800.000 profissionais com experiência combinada em circuitos integrados e aprendizado profundo (deep learning). A demanda por talentos de ponta em áreas como grandes modelos de IA e direção autônoma cresceu 60% em relação ao ano anterior. Mesmo com ofertas de salários anuais na casa dos 800.000 RMB, candidatos qualificados permanecem extremamente escassos.

Por outro lado, alguns cursos relacionados às artes lidam com perspectivas de emprego bem mais sombrias. O Relatório de Emprego MyCOS aponta que a taxa de empregabilidade de seis meses para graduados em artes em 2024 ficou em apenas 80,1%, 16 pontos percentuais abaixo dos graduados em engenharia. O salário inicial médio desses profissionais foi de 4.547 RMB, muito abaixo da média nacional para portadores de diploma de bacharel.

Muitos dos cursos de arte com matrículas suspensas compartilham problemas estruturais: foram estabelecidos às pressas durante ondas anteriores de expansão, carecendo de identidade acadêmica, ou permanecem presos a modelos de ensino antigos que não acompanharam as mudanças da indústria. O avanço da IA afeta diretamente funções de nível básico e médio, como design simples e produção, ampliando a lacuna entre o treinamento acadêmico e a demanda social.

Adaptação em Vez de Extinção

Cheng Xuesong, vice-reitor da Escola de Design da Academia de Belas Artes de Xangai, observa que os programas tradicionais enfatizam a proficiência em software e habilidades de desenho manual — exatamente as capacidades que a IA agora replica com alta eficiência. O declínio populacional agrava esses desafios, criando um efeito cascata desde o jardim de infância até as universidades. Com menos alunos e maior competição no mercado de trabalho, a redução de programas acadêmicos torna-se uma manifestação inevitável de pressões demográficas, com a IA servindo mais como um acelerador do que como a causa raiz.

Contudo, isso não significa a morte da arte, mas a eliminação de capacidades obsoletas. O Ministério da Educação chinês tem introduzido programas interdisciplinares, como arte de imagem inteligente e arte espacial virtual, deixando claro que a educação artística está sendo recalibrada, não repudiada. É o processo histórico recorrente de “disrupção tecnológica – renovação artística – coexistência mútua”. A IA pode assumir tarefas como design de pôsteres, mas ainda não alcança os reinos do julgamento estético.

A Resposta Norte-Americana: Integração e Expansão

Enquanto a Ásia reestrutura seus cursos tradicionais, nos Estados Unidos observa-se um movimento de expansão da alfabetização em IA para todos os campos do saber. A Universidade de Iowa (UI), por exemplo, está lançando diversos cursos como parte de um novo programa de certificação, ampliando significativamente suas ofertas em educação tecnológica.

A instituição está pilotando um novo curso, “Fundamentos de Inteligência Artificial”, que servirá como introdução obrigatória para o certificado de graduação em IA, previsto para ser lançado no outono de 2026. Segundo o escritório de registro da universidade, o certificado exigirá que os alunos se matriculem no curso introdutório e em quatro a seis disciplinas eletivas.

Ali Hasan, professor associado e chefe do departamento de filosofia, explica que o objetivo é apresentar conceitos básicos e proporcionar experiência prática com ferramentas como ChatGPT, além de geração de imagem e vídeo. A ideia é equipar os estudantes com formas de pensar sobre essas tecnologias para suas futuras carreiras, reconhecendo que a IA continua acelerando e mudando dia a dia. A demanda é evidente: a classe de fundamentos já está com a lotação máxima de 60 alunos e possui lista de espera.

Interdisciplinaridade e Ética

A abordagem da Universidade de Iowa reflete uma tendência de democratizar o acesso ao conhecimento técnico. Dentro do Departamento de Engenharia Elétrica e de Computação, um “minor” (formação complementar) existente oferece uma compreensão da IA baseada em engenharia, mas acessível a qualquer aluno, independentemente de sua graduação principal.

Gary Christensen, professor de engenharia elétrica e de computação, destaca que o programa permite aos alunos adquirir habilidades para analisar, projetar e integrar IA em dispositivos, robótica, finanças, saúde, agricultura e transporte. Um estudante de negócios, por exemplo, pode cursar uma disciplina de análise de negócios com IA e contabilizá-la para essa formação complementar.

No entanto, o aumento do uso de IA em diferentes cursos traz preocupações sobre a dependência excessiva da tecnologia e a minimização das habilidades de autoaprendizado. Christensen ressalta que, embora a expansão seja rápida, estudantes de engenharia da computação ainda devem entender como gerar código por conta própria.

O foco, portanto, não é apenas técnico, mas profundamente reflexivo. Como pontua Hasan, o objetivo é que os alunos aprendam a usar essas ferramentas, mas também questionem os riscos éticos envolvidos — não apenas os riscos imediatos das ferramentas que utilizam, mas pensando de forma mais ampla sobre o impacto da inteligência artificial na sociedade. Assim, seja na reestruturação dos cursos de arte na China ou na criação de novos currículos em Iowa, o ensino superior global caminha para um modelo onde a tecnologia não substitui o humano, mas exige dele uma nova postura crítica e criativa.